Cemitério de Coletes - Campo de Refugiados em Lesvos, Grécia

Campo de refugiados sofre incêndio e voluntária relata o que viveu

“Mais do que “refugiados”, essas pessoas têm nomes, rostos, histórias […] Manter essas pessoas vivas não é o suficiente, não é o melhor que se pode fazer por elas. Tem muito mais que pode ser feito!”

Ananda Ribeiro, com relato de Eliceli Katia Bonan
Imagens: Eliceli Katia Bonan

Cemitério de Coletes - Campo de Refugiados em Lesvos, Grécia

Voluntários de uma organização no maior campo de refugiados da ilha de Lesvos passaram por momentos muito difíceis. Uma das voluntárias nos contou detalhes do que aconteceu. Tudo começou quando uma mulher foi cozinhar em sua tenda e o botijão de gás explodiu. Não se sabe se o ocorrido foi provocado ou se foi um acidente. Ela e duas crianças, que podem ser seus netos, morreram na hora. A confusão aumentou quando grupos de migrantes começaram a atear fogo em outros locais dentro do campo de refugiados. Abaixo, você poderá ler sobre o drama vivido por essas pessoas que, apesar de tudo, estão se importando com o próximo sem medir forças para serem suporte em suas aflições.

Relato de uma voluntária no campo de refugiados

  “Estou em Lesvos, na Grécia, região costeira. O incêndio foi no turno da noite. Trabalho neste turno junto com uma equipe da organização Jovens Com Uma Missão (JOCUM) e estávamos todos no container de uma ONG internacional quando o fogo começou. Dois voluntários correram para a barraca onde, aparentemente, o botijão de gás explodiu. Tentaram salvar uma mulher e uma criança lá dentro, mas já era tarde. Eles voltaram correndo ao nosso container em busca de extintores, mas não havia nenhum. Todos os voluntários da ONG foram aos containers, fechamos os portões por dentro e chamou-se o código de evacuação. Aqueles dois homens queriam voltar e salvar as pessoas, mas não era possível, porque nesses casos de descontrole alguns grupos mais violentos podem se voltar contra os voluntários.

Descemos todos juntos até o portão principal e permanecemos um tempo do lado de fora. A polícia invadiu, houve confronto, os refugiados começaram a sair e nós entramos nos carros e corremos para a vila mais próxima, aguardando orientações.

Hospital

Os dois voluntários foram ao hospital receber atendimento, porque um deles estava com bastante tosse, dificuldade para respirar e uma pequena queimadura no rosto. O outro tinha machucado a mão.

Os refugiados começaram a descer para as vilas também. Uma menina grávida sentou em minha frente, onde estávamos aguardando. Ela não parecia bem, só falava árabe. Tentei falar com ela, saber se precisava de ajuda, mas ela disse que estava tudo bem. Depois, levantou-se e desmaiou. Foi reanimada pelas enfermeiras do nosso grupo e acordou dando gritos desesperados!

Ela estava na barraca ao lado daquela onde a mulher morreu, e estava em choque. Ainda não sabemos ao certo como tudo ficou depois. Parece que mais barracas foram queimadas. Mas as coisas estão calmas agora, porque voltamos a trabalhar normalmente nos turnos hoje.

Nesta manhã, a equipe teve um encontro com o grupo de aconselhamento da ONG. Não sei como foi. Eles moram em outra vila e ainda não retornaram nossas mensagens. Mas foi um momento para que eles pudessem processar juntos tudo o que aconteceu.

Caos e recomeço

O fogo é a forma que os refugiados têm de protestar contra a situação terrível que vivem. O lado ruim disso é que acaba sendo um tiro no pé, pois depois precisam dormir no frio. Quando isso acontece, os voluntários é que reconstroem tudo. Hoje vai começar a reconstrução. Precisamos de paciência. Os que causaram o tumulto são presos e retirados dali e as famílias começam a voltar.

Mais do que “refugiados”, essas pessoas têm nomes, rostos, histórias. E que estão fugindo de morrer na guerra para “morrer na praia”, ou seja, estão tentando sobreviver. O pessoal da JOCUM e os voluntários que estão aqui, sem equipe, precisam de apoio e força.

A única coisa que pode nos trazer algum tipo de esperança  agora é crer que essas mortes não foram em vão. Que sirva para que o mundo olhe para a situação desses refugiados, que paremos de ser indiferentes a isso e que façamos alguma coisa para melhorar a situação deles ou para tirá-los daqui. Porque é possível, sim, fazer muita coisa e se tem feito muito pouco. Manter essas pessoas vivas não é o suficiente, não é o melhor que se pode fazer por elas. Tem muito mais que pode ser feito!”.